C'est la vie

Embora não se possa perceber, já que que ao leitor desta bodega não é possível passar a mínima noção de localização cronológica (talvez, se eu colocasse as datas de escrita quando escrevo... enfim), passou-se um bom tempo - ahm, praticamente um mês e meio? - sem que eu escrevesse qualquer coisa para cá.
Porque houve um inferno, é isso.
C'est la vie. Es la vida.
É a vida.
Mas, ei!, essa bodega aqui não é exposição pessoal da vida de ninguém! Así que voy continuar a escribir sobre el intercambio; y que se le haga lo posible, y que todos puedan encontrar su felicidad.
Hora, enfim, de retomar as atividades físicas; e eis que, após uma má sucedida tentativa com relação ao taekwondo espanhol e após ver os preços das academias daqui - por sinal raríssimas de se encontrar, o que talvez ajude a explicar o porquê de os espanhóis serem todos tão esguios--parecendo-tender-a-flácidos -, resolvi optar pela corrida com séries de exercícios autônomos (flexões, abdominais etc.), já que por aqui há uns bons parquinhos cheios de barras e aparatozinhos para auxiliar com esses exercícios.
Só que está um frio de rachar, e quero só ver como será praticar atividades fìsicas num cima assim. Logo eu, belenense eternamente acostumado aos 30 ºC e há anos praticante de taekwondo em um lugar que mais parece um forninho, treinar em uma temperatura dessas de um só dígito?
Vai ser engraçado.
Esses dias tenho tido algumas revelações acadêmicas curiosas – fatos que a princípio cri isolados, mas os quais posteriormente mostraram-se de fato uma verdadeira tendência. O que tenho percebido, basicamente, é o seguinte: a didática de estudo européia não envolve a leitura de livros!
Tudo começou com minhas aulas de Variáveis Complexas quando, por não achar o livro-texto na biblioteca, fui pedir ao professor informações sobre como encontrá-lo. Foi quando, para minha mais completa e estupefata surpresa, ouvi:
– No lo necesitas. Es mejor que estudies por las notas de clase.
Não necessito deles?! Quem em sã consciência dependeria apenas das anotações feitas em sala de aula, restringindo-se à didática de um professor que, sim, pode realmente ser bom, mas que certamente não dispõe de tempo ou magnitude suficiente para permitir abranger mais amplamente um tema?!
Isto, eu vim a descobrir, não era um fato isolado.
A ocasião seguinte ocorreu na disciplina Probabilidade e Estatística; fui atrás da professora para indagá-la sobre uma bibliografia mais adequada, devido a todas as que constarem na bibliografia estarem num nível absolutamente acima do da disciplina, exigindo pré-requisitos mais avançados. Minha resposta? É, realmente a bibliografia na ementa da disciplina não deveria ser levada mesmo em consideração, com efeito todos estavam num nível além do que se desejava criar ali, numa disciplina introdutória de probabilidade e para alunos não tão avançados na universidade; e disse não poder me indicar uma bibliografia apropriada – não conhecia tal –, recomendando que me baseasse... nas anotações em sala de aula!
Comentei isso em seguida com o aluno alemão que conheci nessas aulas de probabilidade, e ele assentiu: também era o mesmo na Alemanha: ele próprio (bolsista Erasmus, portanto certamente bom aluno e referência confiável) sempre se baseara nas anotações do professor, isto era o que estes lhe indicavam e ele realmente só havia precisado utilizar dois livros – em toda sua vida acadêmica.
Deus do céu!
Tem alguma coisa bizarra nisso tudo. Agora estou muito curioso quanto ao desempenho acadêmico do aluno europeu: quero ver sua bagagem teórica, o que emerge do conhecimento que lhe é passado através de unicamente uma fonte. A princípio não me parece possível que um desempenho fundamentado assim seja maior do que o obtido através de vários livros, estes ainda submetidos a avaliação crítica.
E o fato é que, até agora, as aulas não se mostraram ainda, ahm, como pôr?, um nível mais alto de exigência.
Esse é um assunto sobre o qual, definitivamente, ainda há bastante a se avaliar.

Instalado

Enfim, instalado – ainda que sem rotina exatamente definida!
Nesse sentido pelo menos já estou indo com mais frequência às aulas, e estabelecendo uma rotina mais ou menos uniforme de estudos; de modo que a preocupação com as disciplinas têm diminuído um pouco, assim como meu atraso em relação aos professores (creio mesmo que logo os vá a alcançar e passar).
Preocupa-me apenas o método de avaliação daqui, que consiste basicamente em uma grande avaliação ao fim do semestre; o que é de certo modo ruim, porque se um aluno não se prepara no caminho que o professor almeja, não há segundas chances para que ele o faça. Assim, um objetivo a se ter sempre em mente parece ser atentar aos exercícios em sala de aula; imagino que, se é apenas uma prova, os professores quererão mesmo cobrar algo muito perto do que passaram em sala de aula.
[Por sinal, meu espanhol ruim me levou a conhecer um alemão nas aulas de probabilidade. Ele, aparentemente desacostumado com o idioma como eu, parecia do mesmo modo deslocado; eis, assim, que da solidariedade na falta de aptidão nasceu uma certa empatia.]
Ah, nada como aulas!
Quer dizer: nada como matá-las!
Tem sido tão difícil comparecer a elas! Sempre tive problemas para acordar cedo (de modo que o fato de meu curso na Unicamp ser noturno é uma maravilha) mas, a despeito disso, montei um horário com aulas exclusivamente pela manhã aqui na UCM; isto porque queria deixar tanto a tarde quanto a noite livres para fazer coisas interessantes (e, eventualmente, também estudar – o que, bem, é interessante). Pois é: a razão foi nobre, mas a consequência prática direta desse planejamento é que já faltei a um montão de aulas.
Não que isso vá me doer tanto, na verdade. Creio para mim o ideal ser ir umas e outras vezes apenas mesmo, só para ver que rumos o professor está tomando e não me distanciar tanto. Aliás: outra razão para ir, e até forte, é para avaliar as diferenças de ensino e infra-estrutura para este disponível entre as universidades, e assim agregar conhecimento e experiência internacionais à minha capacidade crítica acadêmica. Mas, bem, todas essas razões não demandam necessariamente minha presença contínua às aulas – que afinal têm uma série de razões para não me parecer tão eficientes (assunto este sobre o qual pretendo comentar algum outro dia, inclusive).
E, assim, alegremente, às vezes não acordo de manhã.
P.s.: a academia adverte: não tentem isso em casa, crianças; faltar às aulas é uma atividade (ou falta de) que exige bastante maturidade de estudo, além de alto grau de responsabilidade para arcar com as consequencias de tê-lo feito!
Eis que visitei enfim o “Gimnasio de Taekwondo do Mestre Kim (9º dan)”, aqui em Madri. Havia viajado também com a idéia de treinar por aqui e conhecer o Taekwondo espanhol; mas, mesmo percebendo que no fim acabaria não podendo treinar – seja por não haver muitas academias e as que há serem distantes; seja pelo preço etc. –, mantive minha idéia de ao menos conhecer a academia e assistir a uma aula.
Só que falta de sorte que eu vim a ter!
Não apenas os fatores que eu imaginei como impossibilitantes de treinar aqui mostraram-se mais fortes do que eu esperava (academias mais caras e mais distantes que o previsto), como os únicos treinos que havia – ao menos no “Gimnasio do Mestre Kim”, o qual eu realmente queria conhecer – eram em horários altamente inviáveis sequer para uma visita minha (que pensava já poder presenciar um naquela tarde): apenas cedo da manhã ou tarde da noite!
E assim, após perder-me inocentemente no centro de Madri atrás do “Gimnasio do Mestre Kim” – frise-se, nono dan! –, depois de achá-lo o que houve foi que vi apenas meus sonhos taekwondísticos espanhóis desmantelados.
É a vida.
(Ao menos o tal “Gimnasio” era bem aprumado!)
Como disse durante a postagem passada, fui à minha primeira aula (ahm, não no horário em que pretendo ir normalmente – não acordara a tempo de ir de manhã durante a aula mas, sendo aluno visitante, tenho a regalia [que na verdade deve ser oriunda do fato de que nós, alunos visitantes, não estamos propriamente ligados de certo modo à universidade] de poder assistir a qualquer das aulas das turmas das disciplinas em que me tenha inscrito)!
Conclusão: aulas são potencialmente todas iguais, seja no Brasil ou na Espanha.
(E olha: acho que ainda peguei uma ruinzinha.)
Nos dias seguintes, com diversas idas infrutíferas à universidade – para formalizar de vez a matrícula; para refazê-la após perceber ter pedido por disciplinas anuais (porque na Espanha, ou ao menos na UCM, há disciplinas que duram dois semestres); para tentar assistir a uma aula de tarde da mesma disciplina, só que de outra turma (devido a, ahm... não conseguir acordar cedo, por razões as mais tolas); enfim, por toda uma série de razões –, pude ao menos aproveitar o restante do tempo a sair com um pessoal – no caso, as alemãs já citadas e Raul, outro brasileiro – que merece alguns parágrafos à parte, aliás.
Havia encontrado Raul alguns dias atrás, mas ainda não tinha tido a oportunidade de conhecê-lo melhor – ele ia sair comigo, Marcelus e Jeanette naquela primeira noite de festança, mas por contratempos não pôde de última hora ir. Que figura! Um em termos de aparência nada característico aluno de filosofia, Raul é uma das poucas pessoas que conheço com um sorriso capaz de iluminar todo o ambiente, e com uma presença capaz de unir todo um grupo de pessoas novo e fazê-lo sentir-se familiar.
E estava a partir de Madri.
O que houve, entretanto, é que em uma série de dias saindo comigo e com o pessoal do albergue, Raul perdeu duas vezes seu trem para Lisboa (próxima cidade em sua lista de visitas); de modo que passou tais noites em meu novo apartamento, dada a hora adiantada do dia após ter perdido o transporte (e porque, bem, era o mínimo que eu podia fazer por um amigo).
Isto, levar um amigo para o apartamento já nos primeiros dias de estadia em Madri – e para lá passar a noite, ainda por cima –, imaginei que fosse ser espantoso para meus colegas de piso.
(Felizmente, não foi – são boas pessoas e compreenderam.
Para o bem deles. Mwahaha!)

Las porradas

Cheiro ruim.
Percebi ser o meu. Tinha acabado de acordar – para incredulidade geral, cedo: 9:00, mas apenas porque decidira que, mesmo tendo saído na noite passada, dormido muito tarde e estando cansado, eu iria aquele dia tomar aquele último café-da-manhã no albergue custasse o que fosse, e este ia até 9:30 –, e estava precisando de um banho.
Mas ainda não podia tomá-lo – porque, como exposto, estava à beira de perder o desjejum. Então fui à cozinha daquele jeito mesmo: fedorento, roupa amarrotada e sonolento – mas contente, contente com as amizades e as experiências.
E o dia prosseguiu bem, até certa altura; de posse de minhas malas, levei-as ao apartamento que havia achado. Lá as joguei em meu quarto e fiquei um pouco com Abel e Artie, meus companheiros de piso; conversamos um pouco sobre nós, trocamos algumas idéias, vimos um pouco de tv...
Então fui ao meu quarto, e depois averiguar as condições gerais da casa mais meticulosamente. Apenas para constatar coisas a princípio bizarras (ausência de chuveiros propriamente ditos; ausência de lixeiros; um estranho hábito de sempre deixar o microondas ligado e com a porta aberta, de maneira a só precisar fechá-la para poder usá-lo; etc.), e que em sua quantidade eram de deixar um pouco apreensivo.
Era tudo tão diferente. A esta altura eu já estava percebendo que as maiores diferenças entre as culturas não são visíveis a princípio – não, um olhar rápido e talvez sequer as haja –, mas existem sim, múltiplas, todas presentes nos detalhes.
Por essas e por outras, fui dormir cedo naquele dia.
Dormi 16 horas.
Naquela noite em que encontrei os brasileiros e os alemães, aquela noite em que eu achava que ia apenas descansar um pouco após um dia de buscas – frise-se: bem sucedidas, enfim –, quando eu poderia finalmente restituir merecidamente minhas energias, naquela noite não pude resistir a um convite para sair com o pessoal.
Resultado bruto disto tudo: voltei ao albergue apenas tarde da madrugada, descansando apenas umas poucas horas para o dia seguinte.
Mas foi interessante, e valeu a pena: este tipo de oportunidade, se bem lidada, é ótima para fazer amizades, e creio ter sido o caso; pude, também, analisar parte do que esses europeus gostam de ouvir e concluir que em algum sentido ao menos têm um gosto parecido com o meu (até tocaram Nirvana, yeah!).
E certamente não posso generalizar; mas se todos os alemães forem que nem Jeanette, a alemã que conheci – uma jovem (devo estar ficando velho mesmo; ela é mais nova que eu... Há algum tempo atrás, esse tipo de coisa jamais aconteceria: eu sempre tendi – agora, talvez, deva dizer “tendia” – a conhecer pessoas mais velhas) bem afável, com quem não me canso de rir por causa de nossas diferenças (e semelhanças) culturais –, então terei medo: pois Jeanette dançou a noite inteira, e não mostrou maiores sinais de cansaço.
Ao fim do dia, voltando ao albergue, ainda houve mais uma surpresa: lá, sem reserva e sem onde ter onde mais ficar, tendo como único conforto aquela noite alguns bancos onde se deitar, se encontrava Melina, uma outra alemã – jovem, adorável e cheia de experiência: em sua bagagem de vida já constando inúmeras viagens, inclusive à América Latina – tendo-a conhecido quase toda, pelo que me pareceu, incluindo o Brasil –; ademais falando inúmeros idiomas, inclusive com um espanhol esmagadoramente melhor que o meu (que nunca foi exercitado, é bem verdade, mas o qual poderia em virtude das semelhanças com o português não ser tão facilmente ultrapassado – principalmente por alguém oriundo de uma terra cuja língua é tão diferente!...). Assim, perto dessas pessoas, eu pude perceber o quão pequenino é meu grande mundo.
[(Plagiando uma técnica utilizada por alguém muito especial para mim, irei evitar usar os nomes reais das pessoas que conheci; assim, se por ventura estas vierem a ler isto, não se precisarão ofender, e tampouco sua experiência de leitura será menos aprazível. Creio ser uma boa prática.)
Já ao cabo do segundo dia, quando estava bem cansado, tive a oportunidade de conhecer alguns brasileiros no albergue. Descera aquela noite para jantar na área comunal e, para minha surpresa – cria-me o único brasileiro ali –, alguém falou comigo em português. Estranhei se tinha entendido certo, pensei realmente se não se tratava de espanhol, ou até mesmo português de portugal, e travei ao falar, soltando apenas alguns grunhidos em pseudo-espanhol. E, por isso, a pessoa se ofendeu.
Porque era um brasileiro, Marcelus, que percebeu ser eu também um brasileiro, e por isso pensou que ao tentar travar contato em espanhol eu estava desmerecendo nossa nacionalidade. Marcelus, eu viria a saber, era um cara cheio de opiniões e bastante inclinado a defendê-las; fotógrafo, bon vivant, parecia conhecer a todos e saber de tudo.
Pareceu ofender-se com meu sotaque. Pensara que eu estava tentando imitar o português de portugal, o que de fato realmente seria bizarro. “Sou de Belém”, disse, explicitando-lhe a origem de meu modo de falar.
“Belém?!”, repetiu ele, de certo modo surpreso.
“Qual o problema de ser de Belém?!”, exclamou alguém – de outra mesa! Não apenas era mais uma brasileira: era também outra belenense! E a seu lado havia outra brasileira ainda!
Eram ambas trabalhadoras da área de odontologia, e já estavam aqui na Espanha havia alguns bons anos – uma delas, Gisele, era mesmo casada com um espanhol. Acontece que, ahm, como não podia deixar de ser, ambas estavam de certo modo atentas à minha conversa com Marcelus, e foi a vez destas se ofenderem com algo – no caso, com o tom com que Marcelus exclamou o nome de minha – e de Gisele – cidade natal.
E assim iniciou-se uma discussão entre Gisele e Marcelus – meio a isso Camila, a outra brasileira, apenas ria, um olhar de certo modo maldosamente maroto no rosto; ela, eu viria a descobrir, tinha um senso de humor bem negro.
Mas não tardou a que o ambiente se silenciasse, uma das partes visivelmente contrariada.
E não tardou a que eu fosse dormir, visivelmente deliciado com aqueles brasileiros.]
Mas, a despeito dos recentes progressos em termos de estabilidade no ambiente novo, o fato é que a necessidade de arranjar moradia ainda urgia. E, de posse de vários bilhetinhos com oportunidades de “habitación” coletados já da universidade, eu não mais tinha condições de protelar minha ação. Sim, era chegada a hora: teria de, em um telefone público, pedir toda uma série de informações sobre pisos e suas condições – isto, como já sabemos, sem quase falar espanhol.
Foi uma piada.
Mas com alguma sorte (como creio estar tendo esse início de semestre por aqui), consegui após a segunda ligação um apartamento que pareceu bem razoável. Não sem antes, claro, anotar literalmente o que os interlocutores do outro lado diziam, apenas para tentar decifrar depois. E também não sem antes desligar-lhes na cara, no que devo ter parecido extremamente rude, apenas por não saber exatamente como é que se finaliza em espanhol uma conversação ao telefone.
Feito isso, enfim, fui visitar o local. “Abrantes, 89, 1-C” era o que diziam as notas que eu tinha tomado durante a conversa no telefone. Mas, antes que fosse necessário que eu as precisasse entender, ao sair do metrô fui abordado por uma senhora – justamente a dona do piso, que havia ido até ali para me esperar (que gentileza!). Ela então me levou ao apartamento e me apresentou as acomodações, todas bastante boas – tudo muito acertado em seu lugar e tudo muito prático, qualidades necessárias a residências relativamente diminutas como aquela –, havendo um quarto exclusivo para mim – que eu não me importaria em dividir, é bem verdade, se com isso pudesse pagar menos.
Também com os outros dois inquilinos creio ter tido sorte... São ambos bem relaxados e gentis, têm praticamente a minha idade e parecem boas pessoas com quem se conviver. São universitários também e da área de artes visuais (nossa, simplesmente não me está ocorrendo o termo certo para isso agora), e por isso o apartamento é cheio de coisas relativamente cults e interessantes.
Dei sorte. Mas havia pago o albergue por aquele dia ainda, de modo que resolvi passar a noite nele – divertiria-me um pouco no computador, e dormiria cedo para descansar bastante.
Ingenuidade.
Porque ali chegando encontrei brasileiros e alemães.

Primeras adaptaciones

Terceiro dia.
Segunda tentativa falha em acordar cedo para o café da manhã no albergue.
Já de pé, entretanto, tratei de me levantar para resolver mais questões pertinentes: adaptadores – sim, para meus aparelhos eletrônicos, já que as tomadas européias (ou apenas espanholas, não sei) são de um formato diferente – e moradia.
Tratei de começar pela primeira, indo a um shopping perto do albergue para achar os famigerados adaptadores. Após procurar algum tempo e perder-me pelas áreas do shopping – tão diferente dos brasileiros, sem delimitações precisas entre as lojas (às vezes sequer paredes, fazendo tudo parecer um único ambiente) –, finalmente os pude achar. Mas, com estes adaptadores parecendo tão cheios de especificações, vi-me na necessidade de conversar com um funcionário sobre sua funcionalidade. Aí, pronto: tenta-se o espanhol, o inglês, às vezes até o português para talvez algum detalhe obscuro, e no fim o que se tem é uma grande mistura que, quem diria, acaba por dar um fim digno à conversa, com ambas as partes (quase) certas de que puderam ser entendidas.
Findado isto, estava em uma nova etapa de minha estadia. Tinha um adaptador de tomada, e ter um adaptador de tomada não era pouca coisa: significava que eu poderia agora utilizar meus aparelhos eletroeletrônicos, e assim pude carregar as baterias de meu celular e notebook, passando a ter acesso a informações e ferramentas utilíssimas; dando um fim, finalmente, à minha virtual condição de isolamento.
(Mais tarde ainda vi-me na necessidade de comprar um outro adaptador para o celular, e foi o que fiz; o diabo, entretanto, mostrou-se de tal formato com umas bordas laterais que não permitia a entrada do celular.
Só por isto em si já valeu ter comprado aquele canivete nas Americanas a R$ 8,00. Fiz o adaptador e o celular se encaixarem na marra.)
A crise em si consistiu em perceber que, sendo tão consideravelmente difícil para tudo a comunicação com os espanhóis e as minhas finanças assim tão limitadas para uma vida em Madri, a minha situação estava um lixo. A internet também, um de meus principais meios de alcançar qualquer informação, não me estava acessível com facilidade – não havia conexão no albergue, além da bateria do notebook estar descarregada e as tomadas da Espanha serem irritavelmente diferentes (razão pela qual meu celular também estava inutilizado, incluindo seu despertador).
A essas coisas somaram-se toda uma série de imprevistos a princípio, cada um a seu modo, desgastantemente difíceis de se resolver; e assim pareceu, ao cabo destes acontecimentos, que talvez a ida a Madri talvez não fosse ainda coisa para o meu cacife. Talvez eu tivesse dado um passo maior que a perna, terrivelmente maior.
“Dizem que os primeiros dias são os mais assustadores.”
Aflito, fui dormir.

Supervivencia

Acordei.
Céus, ainda estava no albergue. Naquele mundo onírico.
Pessoas roncando coisas em idiomas diferentes.
Restituído à sanidade, ao inconcebível presente, acometeram-me as preocupações pertinentes: tinha ainda de fazer a matrícula na universidade, além de achar um lugar mais permanente para morar – e para falar a verdade até tinha alguma vontade de ficar o semestre no albergue, esse lugar tão cheio de gente curiosa e de diversas procedências, desejo este impedido pelo limite de noites permitido e também pelas inaceitáveis condições de infra-estrutura para acomodar alguém por tanto tempo –, condições sem as quais minha estadia aqui na Europa seria não muito diferente da de um mendigo.
Levantei-me tarde, como de praxe – meu relógio biológico não tardou sequer um dia em adaptar-se de modo a permitir minha terrível moleza matinal –, saindo logo para a universidade sem querer perder mais tempo; metrô, etc. e tal e logo cheguei.
Já lá, que problemático! Informar-se com pessoas num idioma que se não conhece direito já é difícil; quando as pessoas ainda dão informações erradas, então... Tive que dar umas boas voltas no prédio onde era feita a matrícula até comprovar a incompatibilidade da informação passada, apenas para voltar, perguntar de novo e desta vez obter a resposta certa. Depois disso, sem demais delongas, apossei-me do material para inscrição... E vi ser necessário passar nos centros onde cursarei disciplinas, de modo a apanhar dados para o formulário.
Achei-os sem maiores problemas, podendo informar-me também que os referidos dados não poderiam ser de fato obtidos através deles mesmo, mas o engraçado ocorreu na volta da Facultád de Informática – um dos lugares mais distantes da universidade, praticamente isolado –, onde em uma caminhada tranquila simplesmente me perdi no meio de um bosque enorme.
Juro, não faço idéia de como me meti naquele lugar, que deve ter saído de um buraco dimensional ou algo da sorte! Um instante estava na civilização e, de repente, puft!, estava no campo. “Ah, após aquele morrinho devo poder ver os prédios da universidade” pensei, inocentemente. Mas quanto mais morros eu galgava, mais distante de tudo eu me parecia encontrar. Felizmente, entretanto, por um passe de mágica similar ao que me trouxera ali, encontrei o caminho para a universidade.
(Bom lugar para correr, por sinal, o bosque; não que eu me vá atrever a fazê-lo, claro. Não é sempre que se entra em um portal dimensional e se sai dele vivo, ileso...)
O fato é que após esse processo todo resolvi deixar a matrícula apenas para a semana próxima – tinha bastante tempo ainda para fazê-la, e minhas aulas na verdade também não haviam começado. Assim, enquanto percorria o percurso de volta segui colhendo diversas opções de moradia em quadros de aviso espalhados pela universidade (onde realmente havia muitos desses tais avisos)... Nenhum deles por menos que 270,00 Euros. Mais da metade de minha bolsa, todos, e assim soube que esta não seria o suficiente (ao menos não sem escrupuloso planejamento, como vim a descobrir mais tarde). Droga de Madri e seus imóveis hipervalorizados. Lembrei-me de Barão Geraldo, distrito onde se encontra a Unicamp – ô lugarezinhos caros de se morar...
Já no caminho de volta para o albergue, emergiu a crise.
O primeiro dia em Madri, entretanto, não acabara. Eu cheguei em cima do início do período letivo da Universidát Complutense de Madrid, portanto queria me informar logo acerca de seus procedimentos; e, também, queria entrar em contato com meus conhecidos e conhecíveis daqui (por “conhecível” entenda-se alguém que ainda não se conhece, mas apenas por questão de tempo, e nesta categoria estariam os outros bolsistas; já na outra, meu primo Diego, com quem há tanto tempo não falava).
Após ir em uma Lan House e acessar a internet, anotei todos os telefones necessários e telefonei para uma das bolsistas. Gentil, a garota em questão se mostrou bem afável e me convidou para sair, pois, que sorte!, o restante dos bolsistas tinha marcado um encontro justamente naquele dia e para dali a uma hora. Que oportunidade para conhecê-los! Marquei o lugar, assimilei algumas instruções e parti de metrô (viva os metrôs!) para o ponto de encontro, que seria à frente da Facultád de Ciencias Químicas da universidade – ótima oportunidade, inclusive, para conhecer a UCM, mesmo que um pouquinho.
Cheguei à referida estação (“Cidade Universitária”) e, após perder-me um tanto como bem era esperado, encontrei o primeiro do grupo a chegar. Conversamos um pouco, soube de algumas coisas que não poderia deixar passar por termos de praticidade (como o “Abono Mensal”, um documento que permite tomar metrôs e ônibus durante todo um mês pagando apenas uma tarifa única) etc.; eventualmente chegaram os outros, trocou-se mais idéias e seguiu-se de metrô para o centro de Madri para espairecer e passear.
Mas acho que não estava em minhas melhores horas; com efeito, não parara desde minha chegada a Madri. Tinha ido já de canto a outro, feito isso e aquilo, e ainda ousava fazer um passeio daqueles! O fato é que, cansado, despedi-me do grupo antecipadamente.
Como estava exausto, voltei para o albergue e dormi.
Que nem uma pedra.
Agora tinha que me decidir por um dos albergues; é coisa impensável ficar arrastando quilos e quilos de mala por aí à toa. Minha próxima ligação foi para um deles (havia feito uma lista com quatro após procurar na internet, e esses eram os únicos que pude achar com proximidade viável à civilização), e pude até entender as informações passadas sobre como chegar até ele. Pude captar principalmente que o destino final era a estação de “Argüelles” (com trema mesmo!); assim, constatei no Guia de Madrid que comprei haver um caminho melhor do que o sugerido, há! Eu, então, hábil tomador de metrôs e fã incondicional deles desde a primeira vez que os tomei (este ano ainda), segui pelas linhas madrileñas até a tal estação de Argüelles, um único susto sendo o fato de não haver sempre mensagenzinhas de voz a anunciar a estação por se alcançar.
Cheguei em Argüelles e, após concentrar-me durante algo como 20 minutos no mapa e perder uma boa dose de paciência por não achar a droga dos nomes das ruas na esquina (placas com nome de rua, eu viria a descobrir, não são os únicos tipos de aviso difíceis de se encontrar por aqui), pude achar o albergue. “Santa Cruz de Alguma-Coisa” (“Mordacena”?... ainda hei de lembrar). Ao lado do metrô. Perto de shoppings. No centro de Madri.
Essas coisas, os albergues, não deveriam ficar nos arredores da cidade?
Mas o melhor estava por vir: havia me preparado para um lugar decadente – tanto por saber ser sempre melhor não criar expectativas altas quanto por saber simplesmente não ser possível as exigir de um albergue, ambiente esse para quem não pode pagar os melhores preços –, mas o que encontrei foi um lugar extremamente limpo e bem cuidado!
Por apenas 8,50 Euros! Quase chorei de emoção.

A chegada

Eis que, após toda a confusão passada em São Paulo e um vôo direto com longas 10 horas de duração – com refeições até bem preparadas sim, senhor: lasanhas, canelones, sobremesas, chás, latinhas de refrigerante ou suco; o suficiente, enfim, para realmente satisfazer o cliente –, finalmente havia chegado em Madri. E aí não havia mais volta: enquanto no vôo eu estava em uma espécie de meio-termo, com funcionários espanhóis mas muitos passageiros também brasileiros, agora o idioma e ambiente predominante ao meu redor eram o espanhol.
Com pessoas falando espanhol, avisos em espanhol...
E eu sem saber bicas da língua.
Mas assim foi e, se eu não podia falar o tal idioma direito, certamente não era por falta de vontade; arrastei conversas com os funcionários, perguntando onde ficava tal ou qual coisa, como poderia fazer para achar minha bagagem (o aeroporto de Madri é enorme, e não apenas a bagagem não é uma das primeiras coisas a se recuperar como isso só acontece após a alfândega e uma passagem por um metrô dentro do próprio aeroporto [!]), e às vezes tentando mesmo falar inglês por incapacidade comunicativa – apenas para descobrir, céus, que o inglês dos espanhóis não é, via de regra, bom – quando existente.
Com alguma sofreguidão, entretanto, a primeira etapa foi concluída; e pude chegar ao saguão principal do aeroporto, onde não me poderiam deter mesmo que eu fosse um criminoso procurado, por já haver afinal passado pelo controle.
Agora era a hora de dar notícias minhas para a família, além de arranjar um mapa da cidade. O segundo objetivo foi até fácil – obtive-o em uma lojinha do aeroporto mesmo, como se era de esperar –, mas o segundo... Com alguns arranhões no idioma, descobri que cartões de telefone eram vendidos no correio e logo adquiri um, sofrendo para entender as instruções do funcionário que o vendeu.
Para começar, os telefones públicos espanhóis tem menu! Isso mesmo, nada de teclar de imediato; é possível escolher dentre várias opções antes, sendo que no maldito telefone é até possível enviar mensagens de celular ou e-mails (vai entender diabos como! Tecnologia é fogo!)... Enfim: arrisquei-me na opção “tarjeta de crédito”; pois ora, tarjeta significa “cartão”, e meu cartão telefônico tinha créditos de ligação. E assim passei uma hora tentando pôr os dados do cartão, apenas para me deparar com um tal pedido de “data de caducidad” e não saber o que fazer.
Até que percebi, bobo, que a tal “data de caducidad” deveria significar “prazo de validade”. E “tarjeta de crédito”, “cartão de crédito”...
Foi aí que lembrei das instruções do funcionário do correio, e vi que para ajudar ele havia até sublinhado números no cartão para mim. Assim, digitei em ordem os números que ele ressaltou, na opção de ligação normal.
E pude dar notícias a minha mãe.
(Não sem antes digitar 22 números – sim, 22! –, os quais de tanto repetir já memorizei.)