Fin

    19 de feveiro de 2009 (dia da viagem de volta)
    Eis que acabou.
    Não escrevi muito - por razões quais fossem - nos últimos dois meses, estes entretanto que vieram também a ser tão deliciosamente cheios de vida e significado... e que, juntos ao demais, foram agora a cabo. Acabaram.
    Acabaram.
    O que não acabou, entretanto, foi esse enorme amor que criei por essas pessoas - amor que de certo modo se estendeu tão docemente ao mundo e ao viver -, o resultado de tudo que se passou e as mudanças por isso ocasionadas.
    Vim a esse intercâmbio esperando uma experiência interessante e, para minha absoluta surpresa, deparei-me com algo incomparavelmente maior - uma nova vida.
    E o coração parece que vai explodir.

    Fin

    (o comienzo)
    15 de janeiro de 2009
    Segóvia.
    O que dizer de Segóvia?
    Em verdade não há tanto assim, creio. Trata-se com efeito de uma pequena cidade inteiramente bonita (não sendo à toa sua proclamação pela ONU como patrimônio da humanidade), com um castelo bem interessante e um aqueduto de tirar o fôlego (ok, essa última talvez seja uma impressão bastante pessoal; o fato é que descobri ser encantado pela idéia de aquedutos, construções tão antigas e imponentes!). Mas com o intercâmbio descobri com efeito não ser fascinado por turismo propriamente dito; o que me toca em verdade são as pessoas, seus costumes e visões diferentes.
    Mas nesse sentido Segóvia também foi muito boa; porque, como disse em uma outra postagem, estava com dois amigos - dois alemães: um deles amigo já de longa data (trata-se daquele ao qual conheci no início do período escolar aqui, solidarizando-se comigo nas dificuldades com o idioma espanhol - Juanes, seu nome [fictício, evidentemente]), e a outra a qual conheci melhor nessa viagem mesmo - Kate, uma pessoa bem afável e divertida. Kate, Kate, Kate.
    Quem precisa de castelos, catedrais ou até mesmo aquedutos, quando se tem às pessoas?
    14 de janeiro de 2009
    Neve.
    Vi neve! De verdade!, e não aqueles grãos de açúcar que caíram em Madri há aproximadamente um mês!
    E apesar de ter ouvido dizerem haver diversos tipos de neve, o fato é que vi apenas um. E um absolutamente divertido, por sinal! Muito mais bacana do que eu esperava - sendo que eu tinha grandes expectativas!
    Fiz anjos de neve, participei de guerras de bolas de neve (por deus!, não tenho palavras para expressar o quão infinitamente legais são!), com a neve sujei e com a neve fui sujado (e sujar é um termo muito forte, sendo que a neve simplesmente umedecia o que tocava; e sem tardar secava, para o meu espanto se mostrando um negócio bem limpo).
    Estava com dois amigos alemães em Segóvia (cidade próxima à Madri, e sobre cuja visita nossa ainda devo escrever) quando disto tudo, e pude ver em seus rostos a diversão com minha experiência.
    "Praticamente uma criança", deveriam pensar enquanto marotamente me olhavam - e acredito haver decifrado algo assim enquanto eles conversavam em alemão e eu estava a chutar uma árvore para provocar uma avalanche de neve!
    13 de janeiro de 2009
    Você sabe que está em um país de primeiro mundo se só percebe haver sido roubado quando a própria polícia lhe avisa de tal, com seus pertences já devidamente assegurados - e educadamente a pedir desculpas, dizendo esperar que o ocorrido não influa na sua visão turística do local.
    (Será válido a recíproca? Isto é: se se trata de um país de primeiro mundo, certamente sua polícia é de primeira linha? Não, em definitivo. E como contra-exemplo ponho infelizmente a Espanha, a qual, por exemplo, é um país desta classe - mas sua polícia [ou ao menos o que pude ver dela] não é assim eficaz, além de bastante rude e por vezes mesmo truculenta.)
    Algo assim aconteceu com um amigo meu, em Paris. Um viva à Cidade das Luzes!

Cerca del fin

    12 de janeiro de 2009
    Eis que enfim o fim do intercâmbio está próximo.
    E é tão estranho.
    Estou morrendo de saudades de casa - da família, dos amigos e da terra; e ainda assim não consigo olhar o término desse período sem uma pontada de tristeza. Há sido até agora apenas 4 meses - mas tão intensamente vividos e repletos de experiências que, céus, é simplesmente... estranho deixar isto para trás. E talvez seja apenas por este intercâmbio - representado pela Europa e suas pessoas (e inúmeros viajantes) - ter deixado sua marca em mim... e me feito crescer, de certa forma.
    Será sem dúvida um período a recordar com um montão de nostalgia... e alegria.
    11 de janeiro de 2009
    Continuando a série "comida e intercâmbio", vale a pena comentar sobre como funciona aqui a famosa Regra dos 5 Segundos:
    Acredito que todos a conheçam e, apesar de possíveis diferenças regionais - talvez em alguns estados sejam 3 segundos, ou em outros a regra não se aplique a certos tipos de alimento; enfim -, a essência é sempre a mesma: a de que o alimento, após cair no chão, ainda é passível de ser comido desde que seja recuperado dentro de um determinado intervalo de tempo - a partir do qual torna-se estritamente incomestível (não entro no mérito do porquê).
    Opiniões sobre o quão nojento isso é à parte, a regra existe por uma razão: é fato que, muitas vezes após cair, o alimento simplesmente continua a parecer o mesmo: sem manchas terríveis, possivelmente sem poeira, nada do gênero - não, ele continua com a mesma aparência apetecedora. Que mal faria comê-lo, então?, se não notamos nada de diferente? Daí o surgimento da referida regra, e o intervalo de tempo é apenas um artifício para nos sentirmos melhores quanto ao fato dele ter caído ("não, não deu tempo de acumular sujeira!").
    Muito bem; e então, como funciona a regra aqui na Espanha?
    Não funciona.
    Explico: não sei se é apenas apartamento onde vivo - imagino que seja muitíssimo comum onde mora gente jovem, porque aqui na Europa não é comum contratar auxiliares domésticas (são muito mais caras de remunerar, se comparado ao Brasil) -, mas aqui, apesar de não saltar aos olhos, há sempre tufos e tufos de poeira e pêlos espalhados pelo chão - ainda que em tese limpemos o lugar semanalmente (e certo, uma justificativa poderia ser o fato de que, desacostumados a ter gente paga para limpar sua sujeira, os europeus [ou os espanhóis {ou meus companheiros de apartamento}] simplesmente não tenham um bom padrão de limpeza).
    Pois é. Assim, quando a comida aqui cai no chão é direto game-over. E em verdade nas primeiras vezes até tive o ímpeto de juntá-la para analisar o resultado, mas o que vi apenas me levou a jamais repeti-lo. Pêlos! Poeira! Coisas não-identificáveis! Argh!
    Nojo.
    Assim é que não há, na Espanha (ou no mínimo no apartamento onde resido), nada como a Regra dos 5 Segundos. O que me leva a uma pergunta: quão conhecida mundialmente será tal regra? Lembro-me de ter visto em um programa de televisão norte-americano algo sobre ela, de modo que lá as pessoas a devem conhecer. Mas e no restante do mundo?
    Hm... a se descobrir!
    10 de janeiro de 2009
    Certo, quanto a esse assunto da comida e do ganho de peso ainda há coisas a acrescentar:
    Ocorre que ao chegar aqui na Espanha e me fixar, houve um bom intervalo de tempo até ter acesso a comida decente e de menos pior qualidade. Até então, tive que me virar com besteiras de supermercado, sanduíches preparados e fast-food (principalmente na rede Burger King, por haver um ao lado de onde estou a residir e por uma promoção sua com menus bem baratos).
    Pois é, eventualmente minha alimentação melhorou - mas os fast-foods continuaram, por serem tão práticos (nada de precisar lavar louça, além de eles serem maquiavelicamente rápidos de ser consumidos). E recentemente fiz as contas do saldo de calorias de um menu específico para crianças (o que sempre peço, de nome "King Ahorro"): simplesmente entre 800 Cal e 1000 Cal.
    Isso mesmo. Sendo que a quantidade sugerida de calorias diárias para um homem adulto de compleição normal é 2500 Cal; para uma mulher adulta, 2000 Cal.
    E esperam que uma criança ingira possivelmente 900 Cal assim, em um tapa. Uau!

    Observação: Apenas para constar, o pessoal europeu é todo bem magrinho (com uma notável exceção para os que se vê nos fast-foods - por que será...?). E não é de se espantar: segundo as balanças de farmácia daqui, o peso ideal para um adulto de 1,72 m de altura é de 60 kg! (O que indicaria que estou uns bons 10 kg acima do devido, hehe.)