[(Plagiando uma técnica utilizada por alguém muito especial para mim, irei evitar usar os nomes reais das pessoas que conheci; assim, se por ventura estas vierem a ler isto, não se precisarão ofender, e tampouco sua experiência de leitura será menos aprazível. Creio ser uma boa prática.)
Já ao cabo do segundo dia, quando estava bem cansado, tive a oportunidade de conhecer alguns brasileiros no albergue. Descera aquela noite para jantar na área comunal e, para minha surpresa – cria-me o único brasileiro ali –, alguém falou comigo em português. Estranhei se tinha entendido certo, pensei realmente se não se tratava de espanhol, ou até mesmo português de portugal, e travei ao falar, soltando apenas alguns grunhidos em pseudo-espanhol. E, por isso, a pessoa se ofendeu.
Porque era um brasileiro, Marcelus, que percebeu ser eu também um brasileiro, e por isso pensou que ao tentar travar contato em espanhol eu estava desmerecendo nossa nacionalidade. Marcelus, eu viria a saber, era um cara cheio de opiniões e bastante inclinado a defendê-las; fotógrafo, bon vivant, parecia conhecer a todos e saber de tudo.
Pareceu ofender-se com meu sotaque. Pensara que eu estava tentando imitar o português de portugal, o que de fato realmente seria bizarro. “Sou de Belém”, disse, explicitando-lhe a origem de meu modo de falar.
“Belém?!”, repetiu ele, de certo modo surpreso.
“Qual o problema de ser de Belém?!”, exclamou alguém – de outra mesa! Não apenas era mais uma brasileira: era também outra belenense! E a seu lado havia outra brasileira ainda!
Eram ambas trabalhadoras da área de odontologia, e já estavam aqui na Espanha havia alguns bons anos – uma delas, Gisele, era mesmo casada com um espanhol. Acontece que, ahm, como não podia deixar de ser, ambas estavam de certo modo atentas à minha conversa com Marcelus, e foi a vez destas se ofenderem com algo – no caso, com o tom com que Marcelus exclamou o nome de minha – e de Gisele – cidade natal.
E assim iniciou-se uma discussão entre Gisele e Marcelus – meio a isso Camila, a outra brasileira, apenas ria, um olhar de certo modo maldosamente maroto no rosto; ela, eu viria a descobrir, tinha um senso de humor bem negro.
Mas não tardou a que o ambiente se silenciasse, uma das partes visivelmente contrariada.
E não tardou a que eu fosse dormir, visivelmente deliciado com aqueles brasileiros.]

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