15 de janeiro de 2009
    Segóvia.
    O que dizer de Segóvia?
    Em verdade não há tanto assim, creio. Trata-se com efeito de uma pequena cidade inteiramente bonita (não sendo à toa sua proclamação pela ONU como patrimônio da humanidade), com um castelo bem interessante e um aqueduto de tirar o fôlego (ok, essa última talvez seja uma impressão bastante pessoal; o fato é que descobri ser encantado pela idéia de aquedutos, construções tão antigas e imponentes!). Mas com o intercâmbio descobri com efeito não ser fascinado por turismo propriamente dito; o que me toca em verdade são as pessoas, seus costumes e visões diferentes.
    Mas nesse sentido Segóvia também foi muito boa; porque, como disse em uma outra postagem, estava com dois amigos - dois alemães: um deles amigo já de longa data (trata-se daquele ao qual conheci no início do período escolar aqui, solidarizando-se comigo nas dificuldades com o idioma espanhol - Juanes, seu nome [fictício, evidentemente]), e a outra a qual conheci melhor nessa viagem mesmo - Kate, uma pessoa bem afável e divertida. Kate, Kate, Kate.
    Quem precisa de castelos, catedrais ou até mesmo aquedutos, quando se tem às pessoas?
    14 de janeiro de 2009
    Neve.
    Vi neve! De verdade!, e não aqueles grãos de açúcar que caíram em Madri há aproximadamente um mês!
    E apesar de ter ouvido dizerem haver diversos tipos de neve, o fato é que vi apenas um. E um absolutamente divertido, por sinal! Muito mais bacana do que eu esperava - sendo que eu tinha grandes expectativas!
    Fiz anjos de neve, participei de guerras de bolas de neve (por deus!, não tenho palavras para expressar o quão infinitamente legais são!), com a neve sujei e com a neve fui sujado (e sujar é um termo muito forte, sendo que a neve simplesmente umedecia o que tocava; e sem tardar secava, para o meu espanto se mostrando um negócio bem limpo).
    Estava com dois amigos alemães em Segóvia (cidade próxima à Madri, e sobre cuja visita nossa ainda devo escrever) quando disto tudo, e pude ver em seus rostos a diversão com minha experiência.
    "Praticamente uma criança", deveriam pensar enquanto marotamente me olhavam - e acredito haver decifrado algo assim enquanto eles conversavam em alemão e eu estava a chutar uma árvore para provocar uma avalanche de neve!
    13 de janeiro de 2009
    Você sabe que está em um país de primeiro mundo se só percebe haver sido roubado quando a própria polícia lhe avisa de tal, com seus pertences já devidamente assegurados - e educadamente a pedir desculpas, dizendo esperar que o ocorrido não influa na sua visão turística do local.
    (Será válido a recíproca? Isto é: se se trata de um país de primeiro mundo, certamente sua polícia é de primeira linha? Não, em definitivo. E como contra-exemplo ponho infelizmente a Espanha, a qual, por exemplo, é um país desta classe - mas sua polícia [ou ao menos o que pude ver dela] não é assim eficaz, além de bastante rude e por vezes mesmo truculenta.)
    Algo assim aconteceu com um amigo meu, em Paris. Um viva à Cidade das Luzes!

Cerca del fin

    12 de janeiro de 2009
    Eis que enfim o fim do intercâmbio está próximo.
    E é tão estranho.
    Estou morrendo de saudades de casa - da família, dos amigos e da terra; e ainda assim não consigo olhar o término desse período sem uma pontada de tristeza. Há sido até agora apenas 4 meses - mas tão intensamente vividos e repletos de experiências que, céus, é simplesmente... estranho deixar isto para trás. E talvez seja apenas por este intercâmbio - representado pela Europa e suas pessoas (e inúmeros viajantes) - ter deixado sua marca em mim... e me feito crescer, de certa forma.
    Será sem dúvida um período a recordar com um montão de nostalgia... e alegria.
    11 de janeiro de 2009
    Continuando a série "comida e intercâmbio", vale a pena comentar sobre como funciona aqui a famosa Regra dos 5 Segundos:
    Acredito que todos a conheçam e, apesar de possíveis diferenças regionais - talvez em alguns estados sejam 3 segundos, ou em outros a regra não se aplique a certos tipos de alimento; enfim -, a essência é sempre a mesma: a de que o alimento, após cair no chão, ainda é passível de ser comido desde que seja recuperado dentro de um determinado intervalo de tempo - a partir do qual torna-se estritamente incomestível (não entro no mérito do porquê).
    Opiniões sobre o quão nojento isso é à parte, a regra existe por uma razão: é fato que, muitas vezes após cair, o alimento simplesmente continua a parecer o mesmo: sem manchas terríveis, possivelmente sem poeira, nada do gênero - não, ele continua com a mesma aparência apetecedora. Que mal faria comê-lo, então?, se não notamos nada de diferente? Daí o surgimento da referida regra, e o intervalo de tempo é apenas um artifício para nos sentirmos melhores quanto ao fato dele ter caído ("não, não deu tempo de acumular sujeira!").
    Muito bem; e então, como funciona a regra aqui na Espanha?
    Não funciona.
    Explico: não sei se é apenas apartamento onde vivo - imagino que seja muitíssimo comum onde mora gente jovem, porque aqui na Europa não é comum contratar auxiliares domésticas (são muito mais caras de remunerar, se comparado ao Brasil) -, mas aqui, apesar de não saltar aos olhos, há sempre tufos e tufos de poeira e pêlos espalhados pelo chão - ainda que em tese limpemos o lugar semanalmente (e certo, uma justificativa poderia ser o fato de que, desacostumados a ter gente paga para limpar sua sujeira, os europeus [ou os espanhóis {ou meus companheiros de apartamento}] simplesmente não tenham um bom padrão de limpeza).
    Pois é. Assim, quando a comida aqui cai no chão é direto game-over. E em verdade nas primeiras vezes até tive o ímpeto de juntá-la para analisar o resultado, mas o que vi apenas me levou a jamais repeti-lo. Pêlos! Poeira! Coisas não-identificáveis! Argh!
    Nojo.
    Assim é que não há, na Espanha (ou no mínimo no apartamento onde resido), nada como a Regra dos 5 Segundos. O que me leva a uma pergunta: quão conhecida mundialmente será tal regra? Lembro-me de ter visto em um programa de televisão norte-americano algo sobre ela, de modo que lá as pessoas a devem conhecer. Mas e no restante do mundo?
    Hm... a se descobrir!
    10 de janeiro de 2009
    Certo, quanto a esse assunto da comida e do ganho de peso ainda há coisas a acrescentar:
    Ocorre que ao chegar aqui na Espanha e me fixar, houve um bom intervalo de tempo até ter acesso a comida decente e de menos pior qualidade. Até então, tive que me virar com besteiras de supermercado, sanduíches preparados e fast-food (principalmente na rede Burger King, por haver um ao lado de onde estou a residir e por uma promoção sua com menus bem baratos).
    Pois é, eventualmente minha alimentação melhorou - mas os fast-foods continuaram, por serem tão práticos (nada de precisar lavar louça, além de eles serem maquiavelicamente rápidos de ser consumidos). E recentemente fiz as contas do saldo de calorias de um menu específico para crianças (o que sempre peço, de nome "King Ahorro"): simplesmente entre 800 Cal e 1000 Cal.
    Isso mesmo. Sendo que a quantidade sugerida de calorias diárias para um homem adulto de compleição normal é 2500 Cal; para uma mulher adulta, 2000 Cal.
    E esperam que uma criança ingira possivelmente 900 Cal assim, em um tapa. Uau!

    Observação: Apenas para constar, o pessoal europeu é todo bem magrinho (com uma notável exceção para os que se vê nos fast-foods - por que será...?). E não é de se espantar: segundo as balanças de farmácia daqui, o peso ideal para um adulto de 1,72 m de altura é de 60 kg! (O que indicaria que estou uns bons 10 kg acima do devido, hehe.)

    9 de janeiro de 2009
    Ok, a comida. É preciso comentar sobre minha experiência como chef; porque não, ela não é mais negligenciável. Afinal, acrescentou nos últimos meses 2 kg à minha pessoa.
    Ocorre que vim para a Europa sem saber cozinhar - sem saber cozinhar nada, exceto miojos e ovos fritos (e apenas em teoria!). Afinal, em minha infância sempre tive a felicidade (ou infortúnio) de ter quem preparasse a comida para mim; e após sair de casa para a universidade, deparei-me com um restaurante que por R$ 2,00 permitia-me comer praticamente tanto quanto eu quisesse (louvado seja o Bandejão! Sinto tanto sua falta!).
    Pois bem, aqui na Europa não há nada disso. As refeições são caras. E custam em euros.
    Nesse ínterim surgiu meu primo, residente aqui na Espanha, e me presenteou inocentemente com quilos de carne bovina e de frango.
    - Toma, primo, para você ter o que comer por aqui - disse ele, absolutamente alheio e inocente ao fato de que eu não sabia sequer como jogar manteiga na frigideira.
    Mas o tempo foi passando, o dinheiro apertando um pouquinho e eu simplesmente não podia desapontar meu primo. Assim, peguei as carnes - estavam cruas, mas após um picossegundo de hesitação a minha evidente macheza falou mais alto e eu larguei de frescura -, pu-las para descongelar e taquei para fritar.
    E a primeira vez ficaram meio ruins... queimadas demais, sem gosto. Mas eventualmente foram melhorando, e a técnica foi sendo assimilada. Daí para o arroz, os macarrões (miojo não conta como macarrão, acho; e em verdade eu de fato aprendi a fazer macarrão antes de fritar carne, mas eu não vou reescrever tudo porque estou com preguiça!) e molhos foi um passo; e para o restante, mais outro.
    E agora sou um ávido cozinheiro, e tenho para 2009 a meta boba de aprender 20 receitas novas! Sendo que uma delas já está garantida: Bratkartoffel - ou batata frita (não a que conhecemos!) -, a qual me há de ser ensinada por um bom amigo alemão!
    Assim, já posso dizer com convicção que sei fazer ovo frito (ainda que só em teoria, mas ao menos salvaguardado por experiência com outras coisas)!
    Ah, sim, e pois é: com essa história toda, engordei dois quilos.
    Ô, maravilha!

Renacer

    8 de janeiro de 2009
    Vai chegando o fim do intercâmbio, e com ele as diversas experiências ocorridas - das mais pueris até as mais fortes, as quais se estenderam para além da esfera acadêmica ou turística - vão se aglutinando e resultando, enfim, em uma nova pessoa.
    Ok, nem tão nova assim - mas bem mais experimentada, com certeza. Mais convicta de si.
    Depois de fazer besteira e brigar com pessoas, suscitar animosidade com outras para ajudar terceiras, terminar com namoradas tendo feito o seu melhor - depois de tudo isso e outras porradas mais, você sabe que se saiu bem se ao cabo conseguiu em termos de assimilação um saldo positivo!
    E eu posso dizer tê-lo feito.
    Definitivamente nesse intercâmbio tive a oportunidade de me desligar um pouco do estudo e observar e interagir um tanto com o que há ao redor - e em um ambiente extremamente propício a isso, com pessoas de todo o mundo.
    Ô, mundinho de diferenças! És absolutamente amável!
    7 de janeiro de 2009
    Já o meu ano novo, este passei-o em Paris. Paris!, a cidade do Louvre, da Torre Eiffel, do déspota absolutista Luis XIV (com sua peruca no mínimo interessante) e muitas outras coisas mais!
    E em verdade, devido ao tanto de tempo que passei lá - planejava viajar pelas pequenas cidadezinhas da França também, e por isso reservei uma estadia longa; mas devido ao preço das coisas no país (tudo terrivelmente caro!; como é que as pessoas vivem lá!?), decidi manter-me apenas por Paris mesmo -, o fato é que me senti mesmo um parisiense.
    "Ah, a Torre Eiffel? Ela está sempre aí..." pensava, do que deverei rir muito no futuro. E o fato é que visitei cada monumento umas duas ou três vezes mesmo - primeiro sozinho, depois com amigos e depois com outros mais amigos.
    E foi muito bom; além de visitar a cidade bonita e sorver o seu clima e passado (é muito legal fazê-lo tendo estudado história como se deve no ensino médio!), pude conhecer todo um pessoal muito bacana.
    Brasileiros, por sinal! E com efeito creio haver mais brasileiros em Paris do que franceses em si.
    Mas evidentemente que a viagem não teria tido toda a graça possível se eu não houvesse encontrado algum nativo, ou ao menos pessoas de outras nacionalidades; e felizmente o fiz, conhecendo um pessoal muy guay (não gay! - guay) japonês e mesmo francesas com um francês soando a alemão! (Além de holandesas loucas; mas pelo que vi, todos os holandeses são curiosamente loucos e extrovertidos - ainda que cumprimentem as pessoas com tímidos apertos de mão!)
    Muito boa gente, e fizeram a viagem valer mais a pena que a cidade em si (nada contra você, Paris! Pelo contrário!).
    7 de janeiro de 2009
    Feliz ano novo (atrasado) a todos!
    Não que este seja um dia de fato especial - mas, bem, todos sabemos que nós, homens, sempre precisamos de nada mais do que um pequeno suposto dia importante para nos juntar, comemorar e trocar e criar umas boas histórias!
    3 de dezembro de 2008
    Sorte de principiante existe mesmo quando se está em outros países, pelo visto.
    Aqui na Complutense aprendi com o pessoal da matemática a jogar o Culo ("Cu", em português - palavra que aliás tantos gostariam fosse escrita "cú"; talvez por lhe dar mais ênfase, sei lá), um jogo de baralho que envolve desfazer-se de sua mão empregando cartas com valores superiores às das utilizadas pelo oponente.
    É simples: quem começa se desfaz de até 4 cartas de um determinado valor, e os jogadores seguintes tem que jogar a mesma quantidade de cartas de um mesmo valor igual ou superior às que estão em mesa. Isso até todos não puderem fazê-lo e portanto passem, e aí recomeça o turno depois da última pessoa que passou. Essa é a idéia principal - e há presepadas, naturalmente, como em todo jogo de cartas, mas essas não convém expôr aqui (por sinal no Culo o "3", junto ao ás, tem valor superior até ao rei! O "3"!, por que raios uma carta tão aleatória?).
    Enfim, o fato é que no meu primeiro dia de Culo ganhei todas.
    E no segundo, as primeiras partidas.
    Daí nunca mais.
    ¿Suerte de quién empieza?
    1 de dezembro de 2008
    Pude aprender hoje como produzir uma fácil bomba caseira; tudo de que se precisa é manteiga e um microondas.
    Basta aquecer o suficiente a manteiga na referida máquina e, bam!, tudo explode. Descobri isso do pior modo, enquanto preparava um manhoso molho branco para um nhoque... e céus, toda a cozinha ficou amanteigada e gordurenta. Nunca havia escutado nenhum comentário nesse sentido, sobre manteigas dinamitando cozinhas ou algo dessa sorte!
    (Nesse sentido, convém comentar aqui como em Madri me tornei um chef! Mas fica para a próxima!, hehe.)
    30 de novembro de 2008
    [Bem, tentando fazer aquilo que comentei sobre datar os momentos em que estou a escrever!]
    Domingo tranquilo, e estou a escrever aqui mais para introduzir a idéia de datar as postagens do que por qualquer outra coisa mesmo.
    Ademais Jeanette, que foi embora de Madri há mais de um mês já, está retornando para passar alguns dias antes de continuar viagem e ir conhecer a Argentina. Saudades da garota; que se aproveitem esses poucos dias de estadia, ainda que eu não saiba como... Havia pensado em ir em alguma tourada, mas descobri que elas só ocorrem até o fim de outubro - uma pena; será porque o toureiro e o touro congelam neste friozão atual?, hehe.
    Hm, vou perguntar a um amigo espanhol alguma idéia. Sair para comer paella parece razoável, e creio que ela ainda não o tenha feito.
    (Camarões, artrópodes... Isso me lembra uma história contada por Raul segundo a qual, quando em um dia a sair com Jeanette, esta viu uma barata e, maravilhada [!] pelo animalzinho raro, quase correu para pegá-la. Serão baratas coisas raras assim na Alemanha? Por deus.)
    Mas com efeito não sei como haverá de ser, também. Nosso grupo consistia em Jeanette, Raul (que já voltou ao Brasil), Amália (uma argentina sobre a qual nunca escrevi aqui, acho) e Melina. Aqui em Madri até o momento só estávamos eu e estas duas últimas; mas houve entre nós três uns desentendimentos bem sérios, e sequer estamos nos falando (arhm, não por iniciativa minha, frise-se). De modo que Jeanette talvez vá ter que dividir seu tempo com dois grupos, o que é em absoluto uma droga.
    Pero como ya lo he dicho, c'est la vie.
    [Ora, e não é que me estendi um pouco?]